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Até onde você deixou Deus entrar?

Quando o orgulho se esconde na rotina de fé, precisamos abrir o coração à transformação que só Jesus pode realizar.

Maíra Siqueira Machado09 de outubro de 20266 min de leitura
jesus, a videira e o arrependido

Há um orgulho que não faz barulho. Ele pode se esconder entre uma oração e outra, entre um compromisso na igreja e uma boa ação. Aos poucos, instala em nós a impressão de que já fizemos o suficiente, de que não precisamos aprender mais, ouvir mais ou mudar mais.

Rezamos o terço, intercedemos pelas pessoas, visitamos os doentes, fazemos doações e participamos da vida da comunidade. Tudo isso é precioso. São práticas que alimentam a fé e tornam concreto o amor ao próximo.

Mas, mesmo dentro dessa rotina, precisamos permitir uma pergunta sincera: minha vida de fé tem me tornado mais disponível para Deus ou mais convencido de que já estou pronto?

Podemos estar presentes em muitas atividades religiosas e ainda resistir à ação de Jesus em lugares muito íntimos do coração.

Talvez aceitemos que Ele console nossas dores, mas não que confronte nossas escolhas. Talvez peçamos sua bênção sobre nossos planos, mas tenhamos dificuldade de escutar quando Ele nos chama a mudar de direção.

Até onde, então, permitimos que Deus entre?

A pergunta não serve para medir quem tem mais fé. Ela nos convida a reconhecer onde ainda precisamos de conversão.

Jesus contou a parábola do fariseu e do publicano para pessoas que confiavam na própria justiça e desprezavam os outros. Ambos foram ao templo para rezar. O fariseu apresentou suas práticas religiosas e se comparou favoravelmente aos demais; o publicano reconheceu sua condição de pecador e pediu misericórdia. Na narrativa, Jesus mostra o valor da humildade diante de Deus. (Lucas 18,9-14)

Essa passagem nos pede atenção. É possível transformar até mesmo as boas obras em motivo de comparação. Podemos começar a olhar com superioridade para quem ainda está distante da igreja, para quem vive uma fé diferente da nossa ou para quem enfrenta dificuldades que julgamos já ter superado.

Quando isso acontece, precisamos voltar o olhar para Cristo. Diante dele, também somos pessoas necessitadas de misericórdia.

A cruz de Jesus revela um amor que não conquistamos por merecimento. Receber esse amor nos chama à gratidão, à humildade e a uma resposta cotidiana. Ser amado por Deus não nos dispensa de reconhecer o pecado, reparar o mal e continuar aprendendo a amar.

Por isso, a formação, a escuta da Palavra e a vida em comunidade continuam necessárias. Pode haver razões legítimas para não participar de determinado encontro. Mas vale examinar o coração quando a justificativa habitual é a certeza de que já sabemos o suficiente.
Nossa relação com Ele também precisa alcançar aquilo que acontece depois da oração: a maneira como respondemos em casa, tratamos os colegas, lidamos com as frustrações e reagimos quando somos contrariados.

A primeira carta de São João expressa esse chamado com clareza:

“Aquele que afirma permanecer nele deve também viver como ele viveu.”

(João 15,5)

Essa palavra nos oferece um caminho para examinar a própria vida.

Como tenho tratado minha família quando estou cansado? Consigo pedir perdão sem imediatamente justificar meu erro? Escuto as pessoas ou apenas espero uma oportunidade de defender minha posição? Sou honesto no trabalho, inclusive quando ninguém está observando? A fé que professamos precisa chegar a essas situações concretas.

Também podemos perguntar: quais áreas da minha vida ainda insisto em controlar?

Talvez sejam os relacionamentos, o dinheiro, a necessidade de reconhecimento ou o desejo de ter sempre razão. Talvez seja uma mágoa que alimentamos há tanto tempo que já a consideramos parte de quem somos.Entregar essas áreas a Deus exige sinceridade. Algumas resistências só começam a aparecer quando aceitamos ficar em silêncio, ouvir uma correção ou reconhecer o sofrimento que causamos.

Ainda assim, precisamos olhar para esse processo com esperança. A transformação cristã nem sempre acontece de maneira rápida ou visível. Há feridas antigas, hábitos difíceis e caminhos de amadurecimento que exigem tempo. Continuar lutando com uma fraqueza não significa, por si só, que nunca houve um encontro verdadeiro com Jesus.

Podemos perceber a ação da graça em passos discretos: uma resposta menos dura, um pedido de perdão que antes parecia impossível, a coragem de buscar ajuda, a decisão de recomeçar depois de uma queda.

O coração humilde reconhece esses passos e permanece aberto ao que ainda precisa mudar.

Às vezes, porém, tentamos realizar toda essa mudança apoiados apenas na própria força. Fazemos promessas, estabelecemos metas e nos cobramos até a exaustão. Quando falhamos, sentimos vergonha de voltar a Deus.

Jesus nos chama a permanecer unidos a Ele. Na imagem da videira e dos ramos, ensina que a vida e os frutos dos discípulos dependem dessa comunhão:

“Sem mim nada podeis fazer.”

(João 15,5)

Reconhecer essa dependência nos permite pedir ajuda e agir sustentados pela graça. Podemos procurar o sacramento da Reconciliação, buscar acompanhamento espiritual, aceitar uma correção e tomar decisões concretas para abandonar aquilo que nos afasta de Cristo.

São Paulo une a responsabilidade de responder a Deus à confiança em sua ação: ao exortar os cristãos à perseverança, recorda que o próprio Deus realiza neles o querer e o agir. (Filipenses 2,12-13).

Não precisamos esperar que tudo esteja resolvido para nos aproximarmos do Senhor. Podemos (e devemos!) apresentar a Ele justamente aquilo que ainda está desordenado.

Um coração contrito reconhece o próprio pecado e se abre à misericórdia. Pode dizer com verdade: Senhor, tenho dificuldade de perdoar. Tenho usado minha fé para me sentir superior. Tenho resistido à tua vontade. Preciso que me ajudes.

No livro de Ezequiel, ao anunciar a restauração de seu povo, Deus promete uma renovação profunda:

“Eu vos darei um coração novo e em vós porei um espírito novo.”

(Ezequiel 36,26)

Essa promessa nos ajuda a rezar por uma transformação que alcance a raiz de nossas atitudes. Precisamos de um coração capaz de escutar, reconhecer o erro, acolher o outro e responder ao amor de Deus.

Hoje, reserve alguns instantes para se colocar diante de Jesus. Apresente a Ele suas fraquezas conhecidas e peça luz para enxergar aquelas que ainda não percebeu. Permita que sua Palavra alcance também os lugares que você costuma proteger.

Depois, dê um passo concreto: peça perdão, retome a formação, procure a Reconciliação, escute com mais atenção ou abandone uma atitude que você sabe precisar mudar.

A conversão continua no próximo gesto de amor, na próxima escolha honesta, na próxima oportunidade de responder com humildade.

Até onde você deixou Deus entrar e o que pode entregar a Ele hoje?

Senhor Jesus, abra meus olhos para aquilo que o orgulho me impede de reconhecer. Dá-me humildade para aprender, coragem para pedir perdão e disposição para mudar. Mostra-me onde ainda resisto ao teu amor e sustenta os passos que preciso dar. Renova meu coração, para que minha fé se torne vida nas palavras, nas escolhas e no cuidado com as pessoas. Amém.

Portanto, se alguém está em Cristo, uma nova criatura é ; as coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo.

(2Cor 5,17)

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