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O Pai-Nosso explicado pedido por pedido

Um percurso calmo pela oração que Jesus ensinou, pedido por pedido, para redescobrir o que dizemos quando rezamos o Pai-Nosso.

18 de agosto de 20265 min de leitura
Livros empilhados sobre uma escrivaninha, com óculos de leitura e uma luminária acesa

Poucas orações são tão repetidas e tão pouco examinadas quanto o Pai-Nosso. Nós a rezamos na missa, no terço, à mesa, à beira do leito de um doente. Justamente por ser tão familiar, ela corre o risco de escorregar pelos lábios sem passar pelo coração. Vale a pena, então, deter-se em cada pedido, com calma, para redescobrir o que estamos dizendo.

A oração aparece nos Evangelhos de Mateus e de Lucas, em versões ligeiramente diferentes, e nasce de um pedido dos discípulos: eles queriam aprender a rezar como Jesus rezava. Não se trata, portanto, de uma fórmula inventada pela Igreja e sim do próprio modo de orar do Filho, entregue a nós. Os antigos escritores cristãos gostavam de chamá-la de resumo de todo o Evangelho: nela cabe tudo o que é essencial.

"Pai nosso que estais nos céus"

Antes de qualquer pedido, há um nome. Chamar Deus de Pai não é uma metáfora poética: é a ousadia própria de quem foi adotado como filho no Batismo. Jesus se dirigia a Deus com uma intimidade que soava escandalosa aos ouvidos religiosos de seu tempo, e nos autorizou a fazer o mesmo. Rezar o Pai-Nosso é, no fundo, aceitar ser filho.

E é Pai nosso, não "meu". Ninguém reza esta oração sozinho, mesmo quando a reza em silêncio num quarto vazio. Cada vez que a pronunciamos, admitimos que os outros — inclusive aqueles com quem não nos entendemos — são irmãos. A expressão "que estais nos céus" não indica um endereço no espaço, como se Deus morasse acima das nuvens. "Céu" aqui é o modo de dizer que Ele é diferente de tudo, que não está à nossa disposição como um objeto; e, ao mesmo tempo, que sua morada é o lugar para onde caminhamos.

Os três primeiros pedidos: o que é de Deus

A oração se divide em duas metades. A primeira olha para Deus; a segunda, para nossas necessidades. Essa ordem não é acidental: ela nos ensina que a oração cristã começa por desejar o que Deus deseja, e não por apresentar uma lista.

"Santificado seja o vosso nome." Deus não precisa que o tornemos santo; Ele já é. O que pedimos é que seu nome seja reconhecido como santo — em nós, primeiro. Na Escritura, o nome designa a própria pessoa. Pedir que o nome de Deus seja santificado é pedir que nossa vida não o desminta, que ninguém deixe de acreditar em Deus por causa do nosso testemunho.

"Venha a nós o vosso Reino." O Reino de Deus não é um território nem um sistema político. É a situação em que a vontade de Deus é acolhida e reina de fato: justiça, paz, misericórdia, vida plena. Jesus anunciou que esse Reino já começou com Ele, mas ainda não se completou. Nós pedimos, portanto, duas coisas ao mesmo tempo: que ele cresça agora, no cotidiano, e que se manifeste plenamente no fim.

"Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu." Este é talvez o pedido mais difícil, porque envolve soltar as mãos. Não é resignação diante do que dá errado, como se tudo o que acontece fosse querido por Deus. É a confiança de que a vontade de Deus é nossa salvação, e o compromisso de procurá-la em vez de impor a nossa. Jesus rezou exatamente isso na hora mais dolorosa de sua vida, no Getsêmani.

Os quatro pedidos seguintes: o que é nosso

"O pão nosso de cada dia nos dai hoje." Pedimos pão, não riqueza; e pão de cada dia, não estoque para uma vida. É a oração de quem aprende a depender, um dia por vez. A tradição cristã sempre leu aqui um duplo sentido: o alimento que sustenta o corpo e o alimento eucarístico que sustenta a fé. E, como é "nosso", esse pedido nos compromete: não se pode rezar por pão para todos e fechar a mão para quem está sem.

"Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido." Este é o único pedido que vem com uma condição declarada. Não porque Deus perdoe com mesquinharia, mas porque o perdão só entra num coração que não está trancado por dentro. Perdoar não significa fingir que a ferida não existe, nem dispensar a justiça; significa renunciar à vingança e desejar o bem de quem nos machucou. Muitas vezes é obra de anos, e pode começar simplesmente por pedir a graça de querer perdoar.

"Não nos deixeis cair em tentação." Deus não nos tenta. O que pedimos é não sermos abandonados na hora da prova, não consentir naquilo que nos afasta d'Ele. A formulação em português foi ajustada justamente para deixar isso claro: o pedido é de amparo no momento decisivo.

"Mas livrai-nos do mal." O último pedido abraça tudo: o mal que sofremos, o mal que fazemos, o Maligno que divide e acusa. É um pedido de libertação, dito com a serenidade de quem sabe que a vitória já foi conquistada na cruz e na ressurreição.

Uma oração para rezar devagar

Compreender os pedidos não substitui rezá-los. Mas ajuda a rezá-los com verdade, sabendo o que pedimos e o que assumimos ao pedir.

Uma sugestão simples: na próxima vez que rezar o Pai-Nosso a sós, faça uma pausa depois de cada frase e detenha-se onde o coração pesar. Talvez seja no perdão, talvez no pão, talvez na vontade de Deus. Ali está, exatamente, o que Ele quer trabalhar em nós.

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