Tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (domínio público). Texto digitalizado — em revisão pela paróquia.
1Mas Simão, que, como se disse acima, tinha denunciado o dinheiro, e se havia declarado contra a sua pátria, dizia mal de Onias como se ele fosse o que tinha instigado Heliodoro a fazer o que fizera, e tivesse ele sido a causa impulsiva de todos estes males:
2E atreveu-se a fazer passar por um traidor do reino o protetor da cidade, e o defensor da sua nação, e o zelosíssimo observador da lei de Deus.
3Mas como esta inimizade passava a tal extremo, que até por alguns amigos de Simão se cometiam homicídios:
4Considerando Onias o perigo desta dissenção, e que Apolônio, como governador que era da Celesíria, e da Fenícia, aumentava o seu furor, para animar a malícia de Simão, foi ter com o rei.
5Não como acusador dos seus compatriotas, mas atendendo no seu coração à comum utilidade de todo o seu povo.
6Porque via que sem uma providência do rei não era possível pôr as coisas em paz, nem que Simão cessasse da sua loucura.
7Mas depois da morte de Seleuco, como tivesse recebido o reino, Antíoco, que se chamava o Ilustre, procurava Jasão, irmão de Ônias, usurpar-lhe o sumo sacerdócio:
8Tendo ido com este fim buscar o rei, prometendo-lhe trezentos e sessenta talentos de prata, e oitenta talentos de outras rendas.
9Sobre isto lhe prometia ainda mais outros cento e cinquenta talentos, se se lhe desse faculdade de instituir uma academia, e uma aula, e de fazer os habitantes de Jerusalém cidadãos de Antioquia.
10Tendo o rei anuído a esta sua petição, e ele mesmo alcançado já o principado, logo começou a trabalhar por que os seus naturais abraçassem os ritos dos gentios:
11E abolidos todos os privilégios, que os reis por um efeito da sua humanidade tinham concedido aos judeus, por meio de João, pai de Eupolemo, que foi enviado por embaixador aos romanos, a renovar a amizade, e a aliança dos judeus com eles, transtornando as ordenações legítimas dos seus compatriotas, estabelecia leis perversas.
12Porque teve o atrevimento de fundar uma academia debaixo da mesma fortaleza, e de expor os mais perfeitos moços em lugares infames.
13E isto não era um princípio, mas já um progresso, e consumação da vida pagã, e estrangeira por causa da detestável, e inaudita maldade do ímpio e falso sacerdote Jasão:
14De tal sorte que os sacerdotes não se aplicando já às funções do altar, mas desprezado o templo, e descuidados dos sacrifícios, se apressavam a assistir aos jogos da luta, e à injusta distribuição dos seus prêmios, e aos exercícios do disco.
15E por certo não reputando em nada as honras da pátria, faziam muito maior apreço das glórias dos gregos:
16Por esta causa se excitava entre eles uma perigosa emulação, e faziam alarde de imitar os costumes destes gentios, e afetavam ser em tudo semelhantes aqueles que antes tinham sido seus mortais inimigos.
17Porque o obrar impiamente contra as leis de Deus, não fica sem castigo: E isto mostrará bem às claras a história do tempo que se vai seguindo.
18Pois como se celebrassem em Tiro os jogos, que se fazem de cinco em cinco anos, e estivesse o rei presente,
19mandou de Jerusalém o ímpio Jasão uns homens de vida estragada levar trezentas didracmas de prata para o sacrifício de Hércules, as quais os mesmos que as tinham levado, pediram que se não empregassem em tais sacrifícios, porque não convinha que elas fossem aplicadas para isso, mas para outra casta de despesas.
20Porém estas didracmas sim é verdade que foram oferecidas por aquele que as enviara para o sacrifício de Hércules: Mas em tenção às instâncias dos que as levavam, se aplicaram para a construção das galeras.
21Entretanto enviado ao Egito, Apolônio, filho de Mnesteu, por causa dos grandes da corte do rei Ptolomeu Filometor, como Antíoco viesse a conhecer que tinha sido excluído do governo dos negócios daquele reino, atendendo só a seus próprios interesses, depois de haver partido de lá, veio primeiro a Jope, e depois a Jerusalém.
22E recebido magnificamente por Jasão, e por toda a cidade, fez a sua entrada alumiada de fachos, e entre públicas aclamações: E dali voltou para a Fenícia com o seu exército.
23E passado o espaço de três anos mandou Jasão a Menelau, irmão daquele Simão, de que se falou acima, para levar dinheiro ao rei, e para haver de trazer a resolução de certos negócios importantes.
24Porém Menelau tendo adquirido para si a benevolência do rei pelo modo lisonjeiro com que exagerava a grandeza do seu poder, achou com que fazer recair nas suas mãos o sumo sacerdócio, dando trezentos talentos de prata sobre o que tinha dado Jasão.
25E recebidas as ordens do rei se retirou, não tendo por certo nada que fosse digno do sacerdócio: Mas sim portando-se com o ânimo de um cruel tirano, e com a ira de uma besta fera.
26E assim Jasão, que tinha surpreendido a seu próprio irmão, ele mesmo enganado, depois de banido fugiu expulsado para o país dos amonitas.
27E desta sorte obteve Menelau o principado: Mas não tratava de mandar ao rei o dinheiro que lhe tinha prometido, ainda que Sóstrato, que era o governador da fortaleza, o apertava que fizesse este pagamento:
28Porque a ele pertencia a arrecadação dos tributos: Pelo qual motivo ambos foram citados para comparecer diante do rei.
29E Menelau foi removido do sacerdócio, sucedendo-lhe Lisimaco, seu irmão: E Sóstrato foi promovido ao cargo de governador de Chipre.
30E enquanto estas coisas se passavam, aconteceu excitarem os de Tarso, e os de Malo uma sedição, por terem sido dados a Antioquides, concubina do rei.
31Foi lá pois o rei a toda a pressa apaziguá-los, tendo deixado por seu lugar-tenente um dos grandes da sua corte, por nome Andrônico.
32Menelau porém crendo que tinha chegado a lograr uma ocasião favorável, tendo furtado do templo alguns vasos de ouro, deu parte deles a Andrônico, e vendeu os outros em Tiro, e nas cidades vizinhas.
33Como Ônias tivesse sabido isto com toda a certeza, repreendeu a Menelau, contendo-se ele entretanto em Antioquia num lugar seguro junto a Dafné.
34Por esta causa indo Menelau ter com Andrônico, lhe rogava que matasse a Ônias. Tendo pois vindo Andrônico onde estava Onias, e depois de haver persuadido a este dando-lhe a destra com juramento (se bem que Onias o tinha por suspeito) que saísse daquele asilo, Andrônico o matou logo, sem temor algum da justiça.
35Por esta causa não somente os judeus mas também as outras nações estavam indignadas, e levaram muito a mal a injusta morte de um tão grande varão.
36Pelo que tendo o rei voltado das partes da Cilícia, foram ter com ele a Antioquia os judeus, e juntamente os gregos, queixando-se desta injusta morte de Onias.
37E ficou Antioco penetrado de tristeza, no fundo do seu coração, por causa da morte de Onias, e movido a compaixão dele, derramou lágrimas, lembrado da temperança e modéstia do defunto.
38E aceso em ira manda que Andrônico, despojado da púrpura, seja levado por todas as ruas da cidade: E que um tal sacrílego seja privado da vida no mesmo lugar onde tinha cometido esta impiedade, contra Ônias, dando-lhe o Senhor o castigo que merecia.
39Ora, tendo cometido Lisimaco muitos sacrilégios no templo por conselho de Menelau, e divulgada esta fama, ajuntou-se contra Lisimaco uma grande multidão de povo, a tempo que ele já tinha exportado muito ouro.
40Como os da cidade pois se sublevassem e estivessem os ânimos cheios de cólera, Lisimaco, tendo feito armar perto de três mil homens, começou a usar de violência, sendo capitão desta gente um certo Tirano, igualmente avançado em idade e em malícia.
41Mas quando os do povo entenderam o intento de Lisimaco, uns arrebatadamente lançaram mão de pedras, outros de fortes cajados: E alguns arrojaram cinza contra Lisimaco.
42E foram ali muitos feridos, e alguns também ficaram mortos, e todos postos em fugida: E mataram ao mesmo sacrílego ao pé do tesouro.
43Por todas estas desordens pois se começou a tratar de uma acusação contra Menelau.
44E tendo vindo o rei a Tiro, vieram três deputados enviados pelos anciãos oferecer-lhe as suas queixas nesta matéria.
45E vendo Menelau que ele sucumbia a esta acusação, prometeu dar a Ptolomeu uma grande soma de dinheiro, para ele falar ao rei em seu favor.
46Ptolomeu pois foi buscar o rei, quando ele estava posto num átrio, como a tomar o fresco, e o fez mudar de resolução:
47E este príncipe declarou inocente de delitos a Menelau, posto que culpado em toda a casta de crimes: E condenou à morte aqueles infelizes deputados, que teriam sido julgados inocentes, ainda quando tivessem orado a sua causa diante dos citas.
48Assim aqueles que haviam sustentado os interesses da cidade, e do povo, e o respeito devido aos sagrados vasos, foram punidos para logo contra toda a Justiça.
49Por isso também os mesmos Tiros, indignados do caso, se mostraram generosíssimos na honrada sepultura que lhes deram.
50Entretanto Menelau se mantinha na autoridade pela avareza dos que tinham o poder, crescendo em malícia para fazer traições aos seus compatriotas.
