Tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (domínio público). Texto digitalizado — em revisão pela paróquia.
1E aconteceu também que tendo sido presos sete irmãos com sua mãe, o rei os queria obrigar a comer carnes de porco contra a lei, atormentando-os para isso com açoites que lhes davam com azorragues de couro, e de nervo de boi.
2Mas um deles, que foi o primeiro, lhe disse desta maneira: Que pretendes tu, e que queres saber de nós? nós estamos prontos a antes morrer do que a violar as leis de Deus, e da nossa pátria:
3Com o que irritado o rei, mandou pôr ao lume frigideiras, e panelas de cobre até ficarem em brasa: As quais feitas logo em brasa
4ordenou que se cortasse a língua ao que tinha falado primeiro: E que arrancada a pele da cabeça, lhe cortassem também as extremidades das mãos, e dos pés, a vista dos outros seus irmãos e de sua mãe.
5E depois dele assim decepado já por todo o corpo, mandou que o chegassem ao fogo, e o torrassem na frigideira, quando ainda respirava: Na qual por todo o tempo que ele era atormentado, os mais irmãos se exortavam uns aos outros com sua mãe a morrerem constantemente,
6dizendo: O Senhor Deus verá a verdade, e consolar-se-á em nós, conforme o declarou Moisés quando o protestou no seu cântico, por estas palavras: E ele será consolado nos seus servos.
7E morto deste modo o primeiro, e levavam eles o segundo a padecer com ultraje: E tendo-lhe arrancado a pele da sua cabeça com os cabelos, lhe perguntavam, se queria ele comer das viandas que lhe presentavam, antes que ser atormentado em cada um dos membros de todo o seu corpo.
8Mas ele respondendo na língua de seus pais, disse: Não farei tal. Pelo que também este padeceu em segundo lugar os mesmos tormentos que o primeiro:
9E estando já para dar o último suspiro, disse desta maneira: Tu, ó malvadíssimo, na verdade nos fazes perder a vida presente: Mas o rei do mundo nos ressuscitará na ressurreição da vida eterna, depois de sermos mortos em defensa das suas leis.
10Depois deste insultaram também o terceiro, e tendo-lhe sido pedida a língua, ele a presentou logo, assim como estendeu as mãos constantemente:
11E disse afouto: Do céu recebi estes membros, mas agora eu os desprezo pela defensa das leis de Deus, porque espero que ele mos tornará a dar algum dia.
12De sorte que o rei, e os que o acompanhavam admiraram o valor deste moço, que reputava por nada tão grandes tormentos.
13E morto assim este atormentavam da mesma sorte com igual tirania o quarto.
14E quando ele estava já para render o espírito, disse assim: A nós é-nos melhor ser entregues à morte pelos homens, esperando firmemente em Deus, que de novo havemos de ser por ele ressuscitados: Porque quanto a ti, a tua ressurreição não será para a vida.
15E tendo pegado no quinto, atormentavam-no como os mais: Então ele olhando para o rei, lhe disse:
16Tu fazes o que queres, porque recebeste o poder entre os homens, ainda que mortal como eles: Mas não cuides que Deus tem desamparado a nossa nação:
17Espera tu somente um pouco, e verás o seu grande poder, e como ele te atormentará a ti, e à tua descendência.
18Após este, levavam ao suplício o sexto, e quando ele estava perto de morrer, disse assim: Não te enganes vãmente: Porque se nós padecemos isto, é porque o merecemos, tendo pecado contra o nosso Deus, e assim nós somos os que chamamos sobre nós estes tão espantosos flagelos.
19Mas não imagines tu que hás de ficar sem castigo, depois de teres empreendido combater contra Deus.
20Ora a mãe deles sobremaneira admirável, e digna da memória dos bons, que vendo morrer a seus sete filhos no termo de um só dia, levava com ânimo constante a sua morte, pela esperança que tinha em Deus:
21Cheia de sabedoria exortava com grande esforço na língua de seus pais a cada um deles em particular: E unindo um ânimo varonil à ternura de mulher,
22lhes disse: Eu não sei como vós fostes formados no meu ventre: Porque eu não fui a que vos dei o espírito, nem a alma, nem a vida, nem eu mesma fui a que reuni os membros de cada um de vós.
23Mas porque o Criador do mundo que é quem formou o homem no seu nascimento, e quem deu a origem a todas as coisas, ele também vos tornará a dar o espírito e a vida por sua misericórdia, em recompensa do quanto vós agora vos desprezais a vós mesmos por amor das suas leis.
24Ora Antioco, entendendo que era desprezado, e ao mesmo tempo fazendo pouco caso da voz de quem o insultava, como faltasse ainda o mais novo, ele não somente o exortava com palavras, mas ainda lhe assegurava com juramento que o faria rico, e ditoso, e que o teria na classe dos seus favorecidos, e lhe daria tudo o que houvesse mister, conquanto que ele deixasse as leis de seus pais.
25Mas como o moço não se pudesse dobrar a estas palavras, chamou o rei sua mãe, e lhe persuadia que inspirasse aquele mancebo sentimentos para salvar a vida.
26E depois de a ter exortado com muitas razões, ela lhe prometeu que faria por persuadir a seu filho.
27Ao mesmo tempo tendo-se inclinado já para lhe falar, zombando deste cruel tirano, lhe disse na língua pátria: Meu filho, tem compaixão de mim, que te trouxe nove meses no meu ventre, e te dei o leite, e sustentei por três anos, e te cheguei a essa idade.
28Peço-te, meu filho, que olhes para o céu e para a terra, e para todas as coisas que há neles: Que te capacites bem, que Deus as criou do nada a elas, e a todos os homens:
29Com isto não temerás este cruel algoz, mas fazendo-te digno de ter parte nos tormentos de teus irmãos, aceita de boamente a morte, para que eu te torne a receber com teus irmãos naquela misericórdia que nos espera.
30Quando ela ainda estava dizendo isto, pôs-se o moço a gritar, exclamando: Que esperais vós de mim? eu não obedeço ao mandado do rei, mas ao preceito da lei, que nos foi dada por Moisés.
31Quanto a ti, que és o autor de todos os males que oprimem os hebreus, tu não escaparás da mão de Deus.
32Porque pelo que toca a nós, por causa de nossos pecados é que padecemos todas estas coisas.
33E se o Senhor nosso Deus se irou um pouco contra nós para nos castigar, e para nos corrigir: Ele todavia se tornará outra vez a reconciliar com seus servos.
34Quanto a ti porém, ó malvado, e de todos os homens o mais perverso, não te lisonjeies inutilmente em vãs esperanças, inflamado contra os servos de Deus:
35Porque ainda não escapaste ao juízo de Deus, que pode tudo, e que vê tudo.
36Quanto a meus irmãos, eles depois de terem suportado agora uma dor transitória, entraram já na aliança da vida eterna: Tu porém tens de sofrer no juízo de Deus a pena justamente devida à tua soberba.
37Quanto a mim eu de boamente, assim como também fizeram meus irmãos, entrego a minha alma, e corpo pela defensa das leis de meus pais: Conjurando a Deus que bem cedo se mostre propício à nossa gente, e te constranja a ti por meio de tormentos e de flagelos a confessares que ele é o que só é Deus.
38Na minha morte, porém, e na de meus irmãos acabará a ira do Todo-Poderoso, que justamente caiu sobre todo o nosso povo.
39Então o rei abrasado em ira, se embraveceu contra este mais cruelmente que contra os outros, não podendo sofrer ver-se assim iludido.
40Assim que também este morreu sem se contaminar, confiando em tudo, e por tudo no Senhor.
41E por fim a mãe veio a sofrer também a morte depois de seus filhos.
42Mas de sacrifícios, e de crueldades excessivas, assaz é o que temos dito.
