Tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (domínio público). Texto digitalizado — em revisão pela paróquia.
1Mas não muito tempo depois mandou o rei um certo velho de Antioquia para forçar os judeus a deixarem as leis de Deus e as de seus pais:
2Para profanar também o templo que havia em Jerusalém, e chamá-lo o templo de Júpiter Olímpico, e para dar ao templo de Garizim o nome de templo de Júpiter hospitaleiro como o eram os que habitavam naquele lugar.
3Era pois muito perniciosa e grave para todos esta aluvião de males:
4Porque o templo estava cheio de desonestidades, e de comezainas dos gentios, e de homens impudicos metidos com prostitutas, e as mulheres entravam com todo o despejo nestes lugares sagrados, metendo dentro o que não era permitido.
5O altar também estava cheio de viandas impuras, que eram proibidas pelas leis.
6Nem tampouco se guardavam os sábados, nem se celebravam já as festas solenes do país, e nenhum havia que confessasse de plano que era judeu.
7E por uma dura necessidade eram levados aos sacrifícios no dia dos anos do rei: E quando se celebrava a festa de Baco, constrangiam-nos a ir pelas ruas coroados de hera em louvor do mesmo Baco.
8Também por sugestão dos habitantes de Ptolemaida se publicou um edito em todas as cidades vizinhas dos gentios, pelo qual eram eles também obrigados a obrarem da mesma sorte contra os judeus, constrangendo-os a sacrificarem,
9e a matarem os que não quisessem abraçar os costumes dos gentios: Assim tudo o que se via, era miséria.
10Porque foram acusadas duas mulheres de ter circuncidado seus filhos: As quais tendo-as levado eles publicamente por toda a cidade, pendurados esses filhos a seus peitos, depois as precipitaram de cima dos muros.
11Outros porém ajuntando-se nas cavernas vizinhas, e celebrando ali secretamente o dia de sábado, tendo sido denunciados a Filipe, foram queimados em vivas chamas, porque por escrúpulo, e por não faltarem à sua observância temiam defender-se.
12Eu conjuro porém os que lerem este livro, que se não escandalizem de tão horríveis infelicidades, mas que considerem que todos estes males, que sucederam, não foram para ruína, mas por castigo da nossa nação.
13Porque é sinal de grande misericórdia de Deus para com os pecadores, não os deixar por muito tempo viver segundo os seus apetites, mas aplicar-lhes prontamente o castigo.
14Porque o Senhor não se há conosco, como se porta com as outras nações, que ele sofre com paciência, aguardando pelas castigar na plenitude de seus pecados, quando chegar o dia do juízo:
15E assim ele se houve conosco, não esperando, para que então finalmente ele nos castigue, que os nossos pecados tenham subido ao seu cume.
16Portanto ele por certo não aparta jamais a sua misericórdia de cima de nós: E quando castiga ao seu povo com adversidades, não o desampara.
17Mas baste-nos dizer em poucas palavras estas coisas para a prevenção dos leitores. Assim que nós tornaremos já ao fio da narração.
18Eleazar pois, um dos primeiros doutores da lei, varão provecto na idade, e de venerável presença, depois de lhe abrirem a boca à força, era constrangido a comer carne de porco.
19Mas ele, preferindo uma morte cheia de glória a uma vida odiosa, voluntariamente se encaminhava ao suplício.
20Considerando pois o que lhe convinha sofrer neste recontro, firme na paciência, resolveu não fazer nada contra a lei por amor da vida.
21Mas os que estavam presentes, movidos de uma injusta compaixão, por causa da antiga amizade que tinham com o homem, tomando-o à parte, lhe rogavam que tivesse por bem que lhe trouxessem das carnes, que lhe era lícito comer, para assim se poder fingir que ele tinha comido das carnes do sacrifício, como o rei o tinha mandado:
22Tudo a fim de que por este modo se livrasse ele da morte: E usavam eles com Eleazar desta espécie de humanidade, por efeito da antiga afeição que lhe professavam.
23Mas ele começou a considerar o que era digno do auge da sua idade e velhice, e das suas cãs sócias daquela grandeza de ânimo que lhe era natural, e dos irrepreensíveis costumes em que sempre se criara desde menino: E logo respondeu segundo as ordenações da lei santa, e estabelecida por Deus, dizendo que ele antes queria ser lançado na sepultura.
24Porque não é digno da idade em que eu me acho, lhes dizia ele, usar de uma tal ficção: Dela poderá resultar que muitos moços, tendo para si que Eleazar em idade de noventa anos passara para a vida dos pagãos:
25Venham também eles por causa deste meu fingimento, e por conservar um pequeno resto de uma vida corruptível, a cair em erro, e com isto me grangearia eu uma vergonhosa nota, e a execração dos homens sobre a minha velhice.
26Porque dado que eu me livrasse presentemente dos suplícios dos homens, não poderia todavia fugir à mão do Todo-Poderoso, nem na vida, nem depois da morte.
27Pelo que morrendo valorosamente, parecerei por certo digno da velhice em que estou:
28E deixarei aos moços um exemplo de fortaleza, se sofrer com ânimo pronto, e constante uma honrosa morte em defesa de leis tão graves, e tão santas. Tanto que acabou de dizer estas palavras, foi logo arrebatado para o suplício.
29E os que o levavam, e que pouco antes tinham sido mais brandos, se acenderam em cólera por causa das palavras que Eleazar acabara de dizer, as quais eles entendiam tê-las proferido por arrogância.
30E quando ele estava a ponto de morrer pela veemência dos golpes, deu um grande suspiro, e disse: Senhor, que tens uma ciência toda santa, tu sabes claramente que podendo eu livrar-me da morte, sofro em meu corpo acerbas dores: Mas que na alma sinto alegria em as padecer pelo temor que te tenho.
31E desta maneira é que ele morreu, deixando não somente aos moços, mas também a toda a sua nação, a lembrança da sua morte para exemplo de virtude, e de fortaleza.
