Tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (domínio público). Texto digitalizado — em revisão pela paróquia.
1No mesmo tempo Antíoco voltava ignominiosamente da Pérsia.
2Porque tinha entrado naquela que se chama Persépolis, e intentou roubar o templo, e vexar a cidade: Mas correndo às armas todo o povo, foram os seus postos em fugida: Assim resultou daqui o voltar Antioco desta fugida com afronta.
3E depois que chegou perto de Ecbátana, teve notícia da desfeita de Nicanor e de Timóteo.
4E transportado em ira, imaginava que poderia vingar-se sobre os judeus, da afronta que lhe tinham feito os que o fizeram fugir: E por isso mandou ao cocheiro que apertasse com os cavalos que tiravam por ele, correndo sem cessar, sendo a vingança do céu a que o perseguia, por ter dito com tanto orgulho que iria a Jerusalém, e faria dela um sepulcro de cadáveres amontoados de judeus.
5Mas o Senhor Deus de Israel, que vê todas as coisas, feriu a este príncipe com uma chaga incurável, e invisível. Porque no momento em que ele proferiu estas mesmas palavras, o assaltou uma terrível dor de entranhas, e uns cruéis tormentos dos intestinos:
6E isto com assaz de justiça, pois que ele mesmo tinha rasgado as entranhas aos outros por muitas, e novas maneiras de tormentos, se bem apesar do que de nenhum modo tinha cessado da sua malícia.
7Antes pelo contrário cheio de soberba, respirando fogo de dentro do coração contra os judeus, e mandando que se acelerasse a jornada, aconteceu que indo ele com ímpeto caiu da carroça, e pela grave contusão se lhe quebrantaram os membros do corpo.
8Assim aquele elevando-se pela sua soberba sobre a condição de homem, se tinha lisonjeado que podia até mandar às ondas do mar, e pesar numa balança os mais altos montes, agora humilhado até à terra era levado numa cadeira, dando em si mesmo um manifesto testemunho do poder de Deus.
9Tanto assim que do corpo deste ímpio saíam bichos a ferver, e ainda vivendo lhe caíam as carnes a pedaços no meio das dores, sendo também tão hediondo o cheiro, e fétido que dele saía, que não havia do exército quem lhe pudesse ter o rosto direito:
10E aquele que pouco antes cuidava que podia tocar até às estrelas do céu, agora ninguém o podia suportar por causa dos insuportáveis eflúvios do mau cheiro que saía dele.
11E assim derribado com isto da sua grande soberba começou a entrar no conhecimento de si mesmo, advertido do que era pelo castigo de Deus, dobrando-se-lhe a cada instante as suas dores:
12E como nem ele mesmo pudesse já sofrer o seu mau cheiro, disse assim: É justo que o homem seja sujeito a Deus, e que quem é mortal, não queira pôr-se ombro por ombro com o mesmo Deus.
13Ora este malvado orava ao Senhor, do qual não havia de conseguir misericórdia.
14E aquela cidade, contra a qual ele antes se encaminhava apressado para a assolar, e reduzir a um sepulcro de cadáveres amontoados, agora deseja fazê-la livre:
15E aos judeus, de quem havia dito que nem sequer os teria por dignos de sepultura, mas que os arrojaria as aves, e feras, para os despedaçarem, e que os exterminaria com os seus filhinhos, promete agora fazê-los iguais aos atenienses:
16Promete outrossim que ornará de preciosíssimos dons o Santo Templo, que antes tinha roubado, e que multiplicará o número dos vasos sagrados, que concorrerá das suas rendas para as despesas necessárias dos sacrifícios.
17Que, além disso, ele até se fará judeu, e correrá todos os lugares da terra, e neles publicará o poder de Deus.
18Mas como não cessavam as suas dores (porque justo juízo de Deus tinha enfim descarregado sobre ele) perdendo as esperanças, escreveu aos judeus em forma de súplica uma carta, que continha o seguinte:
19A SEUS BONÍSSIMOS compatriotas, judeus, o rei e príncipe Antioco deseja muita saúde, e que passem bem, e tenham felicidades.
20Se vós, e vossos filhos passais bem, e se vos sucedem todas as coisas como desejais, nós rendemos por isso muitas graças a Deus.
21Eu pois, achando-me agora enfermo, e lembrando-me benignamente de vós, nesta grande doença que me apanhou ao voltar das partes da Pérsia, julguei que era necessário cuidar dos interesses comuns do meu estado:
22Não porque eu desespere da minha saúde, mas, antes pelo contrário, tenho grande confiança que tornarei a melhorar.
23Tendo pois considerado que até meu pai, quando capitaneava o seu exército para as altas províncias, declarou quem havia de tomar as rédeas do governo depois dele:
24A fim de que dado o caso que sucedesse alguma infelicidade, ou se espalhasse alguma má nova, não se inquietassem por isso os que viviam nas províncias do seu reino, sabendo quem era o que ele tinha deixado por herdeiro da sua coroa.
25Refletindo além disto que cada um dos confinantes e vizinhos poderosos estão espreitando as conjunturas, e aguardando as ocasiões, tendo designado rei a meu filho Antíoco que eu muitas vezes, ao passar às altas províncias do meu reino, recomendava a muitos de vós, e lhe tenho escrito o que abaixo se segue.
26Portanto vos rogo, e peço que, lembrados dos benefícios que tendes recebido de mim em comum, e em particular, guarde cada um a fidelidade devida a mim, e a meu filho.
27Porque espero que ele se portará com moderação, e com brandura, e que seguindo as minhas intenções, até vos dará boas provas da sua afabilidade.
28Enfim, este homicida, e blasfemo, ferido de uma horrível úlcera e tratado da mesma sorte que ele tinha tratado os outros, longe da sua terra, acabou a sua vida nos montes com uma miserável morte.
29E fez trasladar o seu corpo, Filipe seu colaço, que, temendo-se do filho de Antíoco, partiu para o Egito, para Ptolomeu Filometor.
