Tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (domínio público). Texto digitalizado — em revisão pela paróquia.
1Havia também um homem que habitava em Babilônia, e o seu nome era Joaquim:
2Este casou pois com uma mulher chamada Susana, filha de Helcias, formosissima e temente a Deus:
3Porque seus pais, como eram justos, instruiram a sua filha segundo a lei de Moisés.
4Ora Joaquim era muito rico, e tinha uma horta ajardinada junto a sua casa: E os judeus concorriam a ele, porque era o mais respeitável de todos.
5Naquele ano porém tinham sido constituídos juízes dois velhos dentre o povo, dos quais falou o Senhor quando disse: Que a iniquidade saiu de Babilônia por uns velhos que eram juízes, os quais pareciam governar o povo.
6Estes frequentavam a casa de Joaquim, e a eles vinham todos os que tinham negócios para julgar.
7E ao meio-dia, quando o povo se tinha ido, entrava Susana, e passeava no pomar de seu marido.
8E estes velhos a viam entrar, e passear todos os dias: E conceberam uma ardente paixão por ela:
9E assim perverteram o seu sentido, e voltaram os seus olhos para não verem o céu, nem se lembrarem dos justos juízos.
10Eles pois estavam ambos feridos do amor de Susana, e todavia não declararam um ao outro o motivo da sua dor:
11Porque se envergonhavam de descobrir um ao outro o seu libidinoso apetite, tendo cada um tenção de corromper a Susana:
12Assim eles observavam todos os dias com grande cuidado o tempo em que a poderiam ver. Um dia pois disse um ao outro:
13Vamos para casa, porque são horas de jantar. E tendo saído, se separaram um do outro.
14Mas tornando logo a vir, se encontraram de novo no mesmo lugar: E depois de se terem perguntado de parte a parte a causa, confessaram ambos a sua paixão, e então de comum acordo ajustaram tempo, em que a pudessem achar só.
15Aconteceu pois que aguardando eles uma ocasião oportuna, entrou ela enfim como tinha de costume, acompanhada somente de duas donzelas, e quis lavar-se no pomar: Porque fazia calma:
16E não estava então ali ninguém, senão os dois velhos, que estavam escondidos e a estavam contemplando.
17Disse pois Susana às donzelas: Trazei-me cá os óleos, e as pômadas, e fechai as portas do jardim, para me lavar.
18E fizeram as donzelas o que ela lhes tinha mandado: E fecharam as portas do jardim, e sairam pela porta travessa para trazerem o que lhes tinha mandado: Elas não sabiam que os velhos estavam dentro escondidos.
19E tanto que as donzelas sairam, levantaram-se os dois velhos, e correram a ela, e lhe disseram:
20Eis-aí estão fechadas as portas do jardim, e ninguém nos vê, e nós ardemos em paixão por ti: Rende-te pois ao nosso desejo, e entrega-te a nós:
21Porque se tu não quiseres, daremos testemunho contra ti, dizendo que estava contigo um mancebo, e que por isso despediste de ti as donzelas.
22Ao ouvir isto, deu Susana um grande gemido, e disse: De todas as partes me vejo cercada de angústias: Porque se eu fizer o que vós desejais, incorro na morte: E se o não fizer não escaparei das vossas mãos.
23Porém melhor me é a mim cair entre as vossas mãos sem cometer o mal, do que pecar na presença do Senhor.
24E imediatamente deu Susana um grande grito: E os velhos também gritaram contra ela.
25E um deles correu à porta do jardim e a abriu.
26Os criados da casa tendo pois ouvido gritar no jardim, correram lá pela outra travessa com ímpeto para verem o que era.
27E depois que lhos disseram os velhos, ficaram os criados sumamente envergonhados, porque nunca tal coisa se tinha dito de Susana. E amanheceu o dia seguinte,
28E tendo vindo o povo à casa de Joaquim, seu marido, vieram também os dois velhos, cheios do iníquo pensamento que tinham formado contra Susana, para lhe fazerem perder a vida.
29E eles disseram diante do povo: Mandai buscar a Susana, filha de Helcias, mulher de Joaquim. E logo a mandaram buscar.
30E ela veio acompanhada de seus pais e de seus filhos e de todos os seus parentes.
31Ora Susana era por extremo delicada, e de uma formosura extraordinária.
32Então aqueles iníquos lhe mandaram descobrir o rosto (porque o tinha coberto com um véu) para se fartarem ao menos assim com a vista da sua beleza.
33À vista pois deste caso choravam os seus, e todos os que a conheciam.
34Então aqueles dois velhos levantando-se no meio do povo, puseram as suas mãos sobre a cabeça de Susana.
35A qual chorando levantou os olhos ao céu: Porque o seu coração tinha uma firme confiança no Senhor:
36E os velhos disseram: Quando nós passeávamos sós no jardim, entrou esta mulher com duas donzelas: E fechou as portas do jardim, e despediu de si as donzelas.
37E um mancebo, que estava escondido, veio-lhe ao encontro, e pecou com ela.
38Ora nós, que estávamos então a um canto do jardim, vendo esta maldade, corremos a eles, e os vimos estar a ambos neste ato.
39E nós não pudemos na verdade apanhar o mancebo, porque era mais forte do que nós e tendo aberto a porta se salvou correndo:
40Mas tendo nós apanhado a esta, lhe perguntamos que mancebo era aquele, e ela não nó-lo quis dizer: Deste sucesso somos nós testemunhas.
41Todo o ajuntamento lhes deu crédito, como a velhos e a juízes do povo, e eles a condenaram à morte.
42Então exclamou Susana mui de rijo, e disse: Deus eterno, que penetras as coisas escondidas, que conheces todas as coisas ainda antes que elas sejam feitas.
43Tu sabes que eles deram contra mim um falso testemunho: E eis-aqui morro, sendo que eu não fiz nada do que eles inventaram maliciosamente contra mim.
44E escutou o Senhor a sua oração.
45E quando a conduziam à morte, suscitou o Senhor o santo espírito de um moço ainda menino, cujo nome era Daniel:
46E gritou em alta voz dizendo: Eu estou inocente do sangue desta mulher.
47E tendo-se voltado para ele todo o povo, lhe disse: Que quer dizer essa palavra que tu acabas de proferir?
48Daniel, pondo-se em pé no meio deles, disse: É possível, filhos de Israel, que sejais vós tão fátuos que sem forma de juízo, e sem mais informação da verdade, condenastes a uma filha de Israel?
49Tornai a julgá-la de novo, porque eles disseram um falso testemunho contra ela.
50Voltou pois o povo apressadamente, e os velhos disseram a Daniel: Vem, e assenta-te no meio de nós, e instrui-nos: Porque Deus te deu a honra da velhice.
51E Daniel disse aos do povo: Separai-os longe um do outro, e eu os julgarei.
52Tendo sido pois separados um do outro, chamou Daniel um deles, e lhe disse: Homem inveterado no mal, os pecados que tu cometias noutro tempo, caíram agora sobre ti.
53Sobre ti que pronunciavas juízos injustos, que oprimias os inocentes, e que absolvias os culpados, apesar de dizer o Senhor: Tu não farás morrer o inocente e o justo.
54Agora pois, se tu apanhaste esta mulher, dize debaixo de que árvore os viste tu falar um com o outro. Ele respondeu: Debaixo de um lentisco.
55E Daniel lhe disse: Justamente é que a tua mentira vai a recair sobre a tua cabeça: Porque eis-aí o Anjo de Deus, que tendo recebido dele o poder de executar a sentença contra ti proferida, te partirá pelo meio.
56E feito retirar este, mandou que viesse o outro: E lhe disse: Raça de Canaã, e não de Judá, a formosura te seduziu, e a concupiscência te perverteu o coração.
57Assim é que tu fazias às filhas de Israel, e elas por medo falavam convosco: Mas a filha de Judá não sofreu a vossa iniquidade.
58Dize-me pois agora, debaixo de que árvore os apanhaste tu, quando se estavam falando. Respondeu ele: Debaixo de um carvalho.
59E Daniel lhe disse: Justamente é também que a tua mentira vai a recair sobre a tua cabeça: Porque o Anjo do Senhor está esperando com a espada na mão, para te cortar pelo meio, e para vos matar a ambos.
60Logo todo o povo gritou em altas vozes e bendisseram a Deus, que salva aos que esperam nele.
61E eles se levantaram contra os dois velhos (porque Daniel os tinha convencido por sua própria boca de terem dado um testemunho falso) e lhes fizeram sofrer o mesmo mal que os dois tinham querido fazer a seu próximo,
62para cumprirem a lei de Moisés: Assim eles os mataram e o sangue inocente foi salvo naquele dia.
63Então Helcias e sua mulher louvaram a Deus por Susana, sua filha, com Joaquim, seu marido, e com todos os parentes, por se não ter nela achado coisa que ofendesse a honestidade.
64E Daniel desde este dia, e pelo decurso do tempo, se fez grande diante do povo.
65E o rei Astyages foi posto junto a seus pais e recebeu Ciro persa o seu reino dele.
