Tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (domínio público). Texto digitalizado — em revisão pela paróquia.
1Daniel pois comia à mesa do rei, que o tinha elevado em honra sobre todos os seus amigos.
2Ora entre os babilônios havia um ídolo chamado Bel: E com ele se gastavam todos os dias doze astabes da flor da farinha e quarenta ovelhas e seis ânforas de vinho.
3O rei também adorava este ídolo e todos os dias o ia adorar: Daniel porém adorava o seu Deus. E o rei lhe disse: Por que não adoras tu a Bel?
4Daniel lhe respondeu, dizendo: Porque eu não adoro os ídolos, que são feitos por mãos dos homens, mas sim o Deus vivo, que criou o céu e a terra e que tem debaixo do seu poder tudo o que tem vida.
5E o rei lhe disse: Não te parece a ti que Bel é um Deus vivente? Tu não vês como ele come e como bebe cada dia?
6E Daniel lhe respondeu sorrindo-se: Ó rei, não te enganes: Porque esse ídolo é de lodo por dentro e de metal por fora, e ele nunca comeu.
7Então o rei todo irado chamou os sacerdotes de Bel, e lhes disse: Se vós me não disserdes quem é o que come tudo o que se gasta com Bel, morrereis.
8Mas se vos mostrardes que Bel é quem come estas viandas, morrerá Daniel, porque blasfemou contra Bel. E Daniel disse ao rei: Faça-se segundo a tua palavra.
9Ora os sacerdotes de Bel eram setenta, sem falar em suas mulheres, nas suas crianças, e em seus filhos. O rei, pois, foi com Daniel ao Templo de Bel.
10E os sacerdotes de Bel lhe disseram: Olha que nós saímos para fora: E tu, ó rei, faze pôr as viandas e dar o vinho e fecha a porta do Templo e sela-a com o teu anel:
11E quando entrares pela manhã, se não achares que Bel tem comido tudo, sem recurso algum morreremos, ou morrerá Daniel que mentiu contra nós.
12Eles porém nada se lhes dava disto, porque tinham feito debaixo da mesa do Altar uma entrada secreta, e sempre entravam por ali, e comiam tudo.
13Logo pois que os sacerdotes sairam, fez o rei pôr as viandas diante de Bel: Daniel mandou aos seus criados que lhe trouxessem cinza, e ele a espalhou por todo o Templo diante do rei, fazendo-a passar por um crivo: E ao sair fecharam a porta do Templo: E tendo-a selado com o anel do rei se foram.
14Mas os sacerdotes entraram de noite, segundo o seu costume, e suas mulheres, e filhos: E comeram e beberam tudo.
15E o rei se levantou ao romper da manhã, e Daniel com ele.
16E o rei lhe disse: Está inteiro o selo? Ele respondeu: Está inteiro, ó rei.
17E logo o rei tendo aberto a porta, vendo a mesa sem nada, exclamou em alta voz dizendo: Tu és grande, ó Bel, e não há em ti engano algum.
18E Daniel começou a rir: E deteve o rei para não passar mais adiante: E lhe disse: Vê este pavimento, considera de quem são estas pegadas.
19E disse o rei: Eu vejo pegada de homens, e de mulheres, e de crianças. E se encheu de ira o rei.
20Então mandou prender os sacerdotes, e suas mulheres, e filhos: E eles lhes mostraram as portinhas secretas, por onde entravam, e vinham comer tudo o que estava sobre a mesa.
21O rei pois os mandou matar, e entregou o ídolo de Bel ao arbitrio de Daniel: Que o destruiu a ele, e ao seu Templo.
22Havia também naquele lugar um grande dragão, e os babilônios o adoravam.
23E o rei disse a Daniel: Eis-ai está que tu não podes dizer agora que este não seja um Deus vivente: Pois adora-o.
24E Daniel lhe respondeu: Eu adoro o Senhor meu Deus: Porque ele é que é o Deus vivente: Este porém não é Deus vivente.
25E tu, ó rei, dá-me licença, e eu matarei este dragão, sem espada, nem vara. E o rei lhe disse: Eu ta dou.
26Daniel pois tomou um tanto de pez, e de gordura, e uns pelos, cozeu tudo junto: E fez umas pelotas, e as meteu pela boca ao dragão, e o dragão arrebentou. E Daniel disse: Eis-ai a quem vós adoráveis.
27Os babilônios, tendo sabido isto, se indignaram fortemente: E tendo-se ajuntado contra o rei, disseram: O rei está feito judeu: Ele destruiu a Bel, ele matou o dragão, e fez tirar a vida aos sacerdotes.
28Eles pois, tendo vindo ao palácio do rei, lhe disseram: Entrega-nos Daniel, se não nós te mataremos a ti, e a toda a tua casa.
29Viu pois o rei que apertavam com ele fortemente: E constrangido da necessidade, lhes entregou Daniel,
30Eles o lançaram no lago dos leões, e estava ali havia seis dias.
31Havia porém no lago sete leões, e cada dia se lhes davam dois corpos, e duas ovelhas: Mas por então não lhos deram, a fim de que eles devorassem a Daniel.
32Neste mesmo tempo estava o profeta Habacuc em Judeia, e este tinha feito um molho, e migado nele uns pães dentro de um caldeirãozinho: E ia levá-los ao campo aos ceifeiros que lá trazia.
33Então disse o Anjo do Senhor a Habacuc: Leva a Babilônia esse jantar que tens, para o dares a Daniel, que lá está no lago dos leões.
34E Habacuc respondeu: Senhor, eu nunca vi Babilônia, e não sei onde é o lago.
35Então o Anjo do Senhor o tomou pelo alto da cabeça, e tendo-o pelos cabelos dela, o levou com apressada atividade do seu espírito até Babilônia, e o pôs sobre o lago.
36E Habacuc gritou mui de rijo, dizendo: Servo de Deus, toma o jantar que Deus te mandou.
37E Daniel respondeu: Ó Deus, tu te lembraste de mim, e não desamparaste os que te amam.
38E levantando-se comeu Daniel. O Anjo do Senhor, porém, restituiu logo Habacuc ao seu lugar.
39Ao sétimo dia veio pois o rei para chorar a Daniel: E chegou-se ao lago, e olhou para dentro, e eis-que vê a Daniel assentado no meio dos leões.
40Então deu um grande grito o rei, dizendo: Tu és grande, ó Senhor Deus de Daniel. E fê-lo tirar do lago dos leões.
41Ao mesmo tempo fez lançar no mesmo lago aos que tinham maquinado a sua perdição, e foram devorados diante dele num momento.
42Então disse o rei: Todos os que habitam em toda a terra, reverenciem com temor a Deus de Daniel: Porque esse é o Salvador, que faz prodígios, e maravilhas sobre a terra: O que livrou a Daniel do lago dos leões.
