Tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (domínio público). Texto digitalizado — em revisão pela paróquia.
1Outro da mesma sorte, fazendo tenção de se meter ao mar, e começando a dar à vela sobre as feras ondas, invoca a um madeiro mais frágil, do que o lenho que o leva.
2Porque a cobiça de adquirir o inventou, e o artífice pela sua habilidade o fabricou.
3Mas a tua providência, ó pai, é a que o governa: Porque tu até no mar abriste caminho, e uma derrota seguríssima por entre as ondas,
4mostrando que és poderoso para salvar de todos os perigos, ainda que alguém se meta no mar sem arte.
5Mas para que as obras da tua sabedoria não fossem vãs: Por esta causa também os homens confiam até de um pequeno lenho as suas vidas, e passando o mar se têm salvado por meio de uma embarcação:
6Mas até do princípio, quando pereceram os soberbos gigantes, acolhendo-se a esperança de toda a terra a um vaso que era governado por tua mão, este conservou ao Mundo os fiadores da sua propagação.
7Porque o madeiro, pelo qual se faz justiça, é bendito.
8Mas o ídolo, que é feito por indústria das mãos, tão maldito é ele mesmo, como quem o fez: Este porque de fato o fabricou: E aquele porque, sendo uma coisa frágil, foi chamado Deus.
9E Deus igualmente aborrece ao ímpio, e a sua impiedade.
10Porquanto a obra que foi feita, com aquele que a fez padecerá tormento.
11Por esta causa também se não terá respeito aos ídolos das nações: Porque as criaturas de Deus se fizeram um objeto de abominação, e um motivo de tentação para as almas dos homens, e um laço para os pés dos insensatos.
12Porque o primeiro ensaio da formatura dos ídolos foi o princípio da fornicação: E o seu último descobrimento foi a corrupção da vida:
13Porque nem os havia do princípio, nem os há de haver para sempre.
14Porquanto a vaidade dos homens foi a que os introduziu no Mundo: E por isso em breve se tem de ver o seu fim.
15Penetrado pois um pai de sensível mágoa fez a imagem de seu filho, que cedo lhe fora arrebatado: E aquele, que então havia falecido como homem, começa agora a adorar como a Deus, e lhe estabelece entre os seus servos cerimônias e sacrifícios.
16Depois com o andar do tempo autorizando-se o mau costume, foi observado este erro como Lei, e por mandado dos tiranos eram adorados os simulacros.
17E quanto aqueles, a que os homens não podiam honrar em presença, por causa de se acharem longe, tendo feito trazer de remontada distância o seu retrato, fizeram manifesta a imagem do Rei, a quem queriam honrar: Para que chegassem com o seu empenho a reverenciar como se estivera presente aquele que estava ausente.
18Ora até aos que eram ignorantes foi levando ao culto deles a primorosa exação do artífice.
19Porque desejando este encher as medidas ao que lançou mão dele, se esmerou com a sua arte para representar uma figura o melhor que fosse possível.
20E o vulgo dos homens arrebatado da formosura da obra, tomou logo por Deus aquele que até ali fora honrado como homem.
21E esta foi a ilusão da vida humana: Porquanto os homens, ou por satisfazer ao seu particular afeto, ou por obsequiar aos reis, deram as pedras e ao pau um nome incomunicável.
22E não tinha sido bastante aos homens terem eles errado acerca do conhecimento de Deus, mas ainda vivendo em grande guerra de ignorância, chamam paz a tantos e tão grandes males.
23Porque ou sacrificando os seus próprios filhos, ou fazendo sacrifícios ocultos, ou celebrando vigílias cheios de fatuidade,
24nem conservam já com pureza a sua vida, nem os seus matrimônios, mas um ao outro mata por inveja, ou o entristece adulterando:
25E todos os crimes se acham de mistura, o sangue, o homicídio, o furto e o engano, a corrupção e a infidelidade, a turbação e o perjúrio, o tumulto dos bons,
26o esquecimento de Deus, a contaminação das almas, a mudança do nascimento, a inconstância dos matrimônios, as desordens do adultério e da impudicícia.
27Porque o culto dos ídolos abomináveis é a causa e o princípio e fim de todo o mal,
28Porque ou fazem desatinos, enquanto se divertem: Ou vaticinam por certo falsidades, ou vivem sem justiça, ou juram falso incontinenti.
29Porque enquanto eles confiam nos ídolos, que não têm alma, esperam, fazendo tais perjúrios, não receber detrimento.
30Porém sobre eles virá o merecido castigo de ambos estes crimes: Porquanto sentiram mal de Deus, respeitando aos ídolos, e juraram injustamente, desprezando com dolo a justiça.
31Porque não é o poder daqueles, por quem juraram, mas a pena dos que pecam, a que anda sempre no alcance da prevaricação dos injustos.
