Tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (domínio público). Texto digitalizado — em revisão pela paróquia.
1Grandes são pois, Senhor, os teus juízos, e inefáveis as tuas palavras: Por isso as almas indisciplinadas se desgarraram.
2Pois enquanto os iníquos se persuadem que podiam dominar a uma santa nação ligados com as prisões das trevas, e duma longa noite, encerrados em suas casas, ficaram os fugitivos da perpétua providência.
3E quando eles cuidam estarem escondidos na obscuridade dos seus pecados, foram dispersos com um véu tenebroso de esquecimento, horrendamente espavoridos, e com assombro excessivo perturbados.
4Pois nem a cova, em que estavam, os guardava sem temor: Porquanto baixando sobre eles um certo estrondo os perturbava, e aparecendo-lhes vários espectros medonhos de pavor os combatiam.
5E verdadeiramente nenhuma atividade de fogo lhes podia dar luz, nem as puras chamas das estrelas podiam esclarecer aquela horrorosa noite.
6Mas de repente lhes aparecia fuzilando um clarão de fogo, que infundia temor: E sobressaltados com o medo daquele objeto, que mal se divisava, julgavam serem mais formidáveis do que eram, as coisas que a seus olhos se ofereciam:
7Então é que todas as ilusões da arte mágica ficaram com ludíbrio desacreditadas, e a vanglória da sua sabedoria convencida com ignominia.
8Porque os que prometiam expelir os temores, e turbações da alma desfalecida, esses eram os que estavam ridiculamente lânguidos pelo espanto, que de todo os ocupava.
9Porquanto ainda que nenhum dos espectros os turbava: Assustados com a passagem dos animais, e com os silvos das serpentes, pereciam tremendo de medo: E recusando ver o ar, que ninguém de modo algum poderia evitar.
10Porque sendo medrosa a maldade, ela dá testemunho da sua condenação: Pois sempre uma consciência perturbada presume coisas cruéis.
11Pelo que o temor não é outra coisa mais do que a turbação da alma que se crê destituída de todo o socorro.
12E enquanto ela dentro em si tem menos esperança de auxílio, por mais formidável reputa aquela incógnita causa, que a atormenta.
13Aqueles pois que numa noite verdadeiramente irresistível, e vinda do mais baixo e profundo dos infernos, dormiam um mesmo sono,
14umas vezes eram agitados pelo temor dos monstros, outras desmaiavam pelo desfalecimento do seu espírito: Porque os sobressaltava um repentino e não esperado temor.
15Depois disto se algum deles tinha caído, ficava como preso em um cárcere encerrado sem ferro.
16Porque se o que era camponês, ou pastor, ou o que se ocupava nos trabalhos do campo, tinha sido apanhado, sofria uma necessidade inevitável.
17Porque todos estavam ligados com uma mesma cadeia de trevas. Ou fosse o vento quando assoprava, ou o suave canto dos passarinhos entre os espessos ramos das árvores, ou a violência da água correndo com ímpeto,
18ou o grande ruído que faziam as pedras, quando se precipitavam, ou a carreira dos animais que retouçavam juntos, sem eles os poderem ver, ou a forte voz das feras que bramavam, ou o eco, que dos mais altos montes retumbava: Tudo isto lhes fazia ter mortais delíquios de temor.
19Porque todo o resto do mundo estava alumiado com uma clara luz, e se ocupava nos seus trabalhos sem impedimento algum.
20Mas sobre eles só estava posta uma carregada noite, imagem das trevas, que lhes havia de sobrevir. Por onde eles a si mesmos eram mais insuportáveis do que as próprias trevas.
