É possível passar tanto tempo tentando não fazer o mal que nos esquecemos de fazer o bem. Pensamos nos lugares que devemos evitar, nas roupas que não devemos vestir, nas pessoas de quem precisamos manter distância. Discutimos comportamentos, estabelecemos limites e observamos se os outros estão respeitando as mesmas regras que nós.
Enquanto isso, uma pergunta pode ficar sem resposta: o que a nossa presença está tornando melhor?
Uma postagem de Jenna Barrett me chamou a atenção por trazer essa reflexão. A autora lembra que os cristãos devem ser reconhecidos também por aquilo com que contribuem: um trabalho honesto, uma criação bela, boas ideias, iniciativas que melhoram a vida dos vizinhos.
A mensagem me fez pensar em quanto da nossa energia dedicamos a vigiar o que consideramos errado em nós mas, principalmente, nos outros e quanto dedicamos a oferecer algo bom.
Quando a vigilância ocupa o lugar do amor
Existem escolhas das quais precisamos nos afastar. A fé exige discernimento, e há limites que protegem a nossa vida e a vida de quem está perto de nós. Mas podemos nos acomodar numa rotina em que quase toda a nossa atenção se concentra no comportamento alheio.
A roupa de alguém se torna assunto. O lugar que alguém frequenta se torna motivo de suspeita. Uma diferença de costume se transforma em medida da espiritualidade do outro. E, sem perceber, começamos a acreditar que saber apontar erros é sinal de maturidade cristã.
Há um custo nisso. O tempo dedicado a comentar a vida de uma pessoa poderia ser usado para ouvi-la. A disposição para criticar uma comunidade poderia se transformar em disponibilidade para ajudar. A atenção tão minuciosa aos defeitos dos outros poderia alcançar as nossas próprias atitudes.
Podemos ter opiniões firmes sobre muitas coisas e ainda assim ser impacientes dentro de casa, desonestos nas pequenas vantagens, indiferentes ao sofrimento de quem trabalha conosco. Isso deveria nos fazer parar antes de julgar tão depressa.
Falar sobre Jesus e aprender a viver com Ele
Falar sobre Jesus é relativamente fácil. Podemos repetir suas palavras, compartilhar mensagens bonitas e conhecer as expressões certas para cada ocasião. Viver como Ele viveu exige que essas palavras atravessem as nossas escolhas.
Exige paciência quando estamos cansados. Honestidade quando ninguém está conferindo. Humildade quando percebemos que ferimos alguém. Generosidade quando ajudar custa tempo, atenção ou conforto.
Nos Evangelhos, encontramos Jesus se aproximando de pessoas, escutando perguntas, acolhendo dores e devolvendo dignidade a quem era tratado como um problema. Seu amor tinha consequências concretas na vida de quem o encontrava.
Talvez precisemos perguntar com mais frequência: como as pessoas se sentem depois de conviver conosco? Foram ouvidas? Receberam ajuda? Encontraram respeito? Conseguiram respirar um pouco melhor? Sentem-se acolhidas e perdoadas?
Essas perguntas trazem a fé para perto da vida cotidiana, onde boa parte do nosso testemunho acontece.
É ali que ser cheio do Espírito Santo ganha expressão visível. Amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio precisam encontrar espaço nas conversas, no trabalho, nas discordâncias e nas tarefas que ninguém aplaude.
O bem que cabe nas nossas mãos
Nem toda contribuição terá grande alcance. Muitas serão discretas, repetidas e conhecidas por poucas pessoas.
Fazer bem um trabalho. Cumprir um combinado. Dar crédito a quem merece. Tratar com respeito quem não pode nos oferecer nada em troca. Evitar que uma conversa se transforme em humilhação de alguém ausente.
Também há espaço para criar: uma iniciativa que resolve um problema da comunidade, uma arte que desperta sensibilidade, um negócio conduzido com honestidade, uma ideia que facilita a vida de alguém.
A fé pode nos tornar mais atentos, responsáveis e criativos. Pode nos ensinar a perceber necessidades que antes passavam despercebidas e a colocar nossos talentos a serviço delas.
Às vezes, estamos esperando uma grande oportunidade de servir enquanto ignoramos a pessoa que precisa de ajuda bem ao nosso lado.
Um pouco melhor a cada dia
Nenhum de nós consegue viver como Jesus em tudo, o tempo todo. Reconhecer essa distância faz parte de uma caminhada sincera. Mas essa constatação pode nos levar a recomeçar.
A ideia de tentar ser “1% melhor a cada dia” não precisa virar uma cobrança matemática. Há dias difíceis, recaídas e situações em que só depois percebemos o que poderíamos ter feito de outra maneira. Não conseguimos medir o amadurecimento da fé como quem acompanha uma meta de produtividade.
Ainda assim, podemos cultivar uma disposição diária: hoje, quero responder com um pouco mais de paciência. Quero ouvir antes de concluir. Quero reparar uma injustiça que cometi. Quero fazer o bem que venho adiando.
Depender da graça de Deus inclui permitir que ela transforme hábitos muito concretos. Talvez o próximo passo seja pedir perdão. Talvez seja encerrar uma fofoca, cumprir uma responsabilidade ou oferecer ajuda sem esperar reconhecimento. Pequenas escolhas repetidas podem mudar a qualidade da nossa presença na vida dos outros.
Uma pergunta para levar conosco
Ao fim do dia, podemos examinar tanto o mal que evitamos quanto o bem que tivemos oportunidade de fazer.
Houve alguém que eu poderia ter escutado? Uma tarefa que merecia mais cuidado? Uma palavra que poderia ter sido mais gentil? Uma necessidade diante da qual eu ainda posso agir?
Não precisamos resolver tudo. Podemos começar pelo que está ao nosso alcance e aceitar que também temos muito a aprender.
Quero guardar essa pergunta para a minha própria caminhada: que bem a minha fé está me ajudando a colocar no mundo?
Que a resposta apareça, aos poucos, na maneira como trabalho, acolho, converso, crio e cuido. E que, nas pequenas coisas, alguém encontre em mim um pouco do amor de Jesus. E e, você também!




