Tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (domínio público). Texto digitalizado — em revisão pela paróquia.
1Também eu por certo sou um homem mortal, semelhante a todos, e da descendência daquele terreno que foi primeiro feito, e no ventre da minha mãe fui formado carne.
2dentro do espaço de dez meses fui coalhado em sangue, do sêmen do homem, e concorrendo o deleite do sono.
3E eu tendo nascido respirei o ar comum, e caí na terra feita do mesmo modo, e dei a primeira voz semelhante a todos chorando:
4Envolto em faixas fui criado, e isto com grandes cuidados,
5Porque nenhum dos reis teve outro princípio de nascimento.
6Logo é para todos uma mesma a entrada na vida, e semelhante a saída dela.
7Por amor disto desejei eu a inteligência, e ela me foi dada: Invoquei o Senhor, e veio a mim o espírito da sabedoria:
8E a preferi aos reinos e aos tronos, e julguei que as riquezas nada valiam em sua comparação:
9Nem pus em paralelo com ela as pedras preciosas: porque todo o ouro em sua comparação é uma pouca de areia, e a prata será reputada como lodo à sua vista.
10Eu a amei mais do que a saúde, e do que a formosura, e me resolvi a tê-la por luz: Porque a sua claridade é inextinguível.
11E todos os bens me vieram juntamente com ela, e inumeráveis riquezas por suas mãos,
12e me regozijei em todas as coisas: Porque ia diante de mim esta sabedoria, e eu ignorava que ela é mãe de todos estes bens.
13Eu a aprendi sem fingimento, e a reparto com os outros sem inveja, e não escondo as riquezas que ela encerra.
14Porque ela é um tesouro infinito para os homens: Do qual os que usaram, têm sido feitos participantes da amizade de Deus, recomendáveis pelos dons da doutrina.
15Mas Deus me fez a graça de que eu falasse segundo o que sinto, e de que presumisse coisas dignas destas, que me são dadas: Porquanto ele é o guia da sabedoria, e o emendador dos sábios:
16Porque na mão dele estamos, assim nós, como os nossos discursos, e toda a sabedoria, e a ciência de obrar, e a disciplina.
17Porque ele me deu a verdadeira ciência destas coisas, que existem: Para que saiba a disposição do orbe da terra, e as virtudes dos elementos,
18o princípio, e o fim, o meio dos tempos, as mudanças das alternativas, e as vicissitudes das estações,
19os cursos do ano, e as disposições das estrelas,
20as naturezas dos animais, e os instintos dos brutos, a força dos ventos, e os pensamentos dos homens, as diferenças das plantas, e as virtudes das raízes,
21e aprendi todas quantas coisas há escondidas, e não descobertas: Porque a sabedoria, artífice de tudo, mo ensinou:
22Porque há nela um espírito de inteligência, santo, único, multíplice, sutil, discreto, ágil, imaculado, claro, suave, amigo do bem, penetrante, a quem nada impede que não obre benefício,
23amante dos homens, benigno, estável, constante, sossegado, que tem todo o poder que tudo vê, e que encerra em si todos os espíritos: Inteligível, puro, sutil.
24Porque a sabedoria é mais ativa do que todas as coisas atuosas: E ela toca em toda a parte por causa da sua pureza.
25Porque é um vapor da virtude de Deus, e uma como sincera emanação da claridade do Onipotente Deus: E por isso nada manchado cai nela:
26Porque ela é o clarão da luz eterna, e o espelho sem mácula da majestade de Deus, e a imagem da sua bondade.
27E sendo uma só, pode tudo: E permanecendo em si mesma renova todas as coisas, e pelas nações se transfunde nas almas santas, forma os amigos de Deus e os profetas.
28Porque Deus a ninguém ama, senão ao que habita com a sabedoria.
29Porque esta é mais formosa do que o sol, e sobre toda a disposição das estrelas comparada com a luz, ela se encontra primeiro.
30Porque a ela sucede a noite, mas a malícia não vence a sabedoria.
